Lidando com a morte: por que vida e morte são essencialmente a mesma coisa

Há algum tempo buscando um tema para uma primeira postagem, procurei ter coerência ao objetivo desse blog – servir de apoio a textos que pretendo publicar no futuro próximo –, e, para isso, escolher um assunto intrínseco aos temas dessas histórias. E o que veio de imediato foi a morte e sua relação com a vida (quem estiver lendo esse post e puder acompanhar tanto a progressão de postagens como as publicações futuras obviamente vai compreender).

Muito além do conhecido ditado de que “vida e morte são lados da mesma moeda”, ou da lógica simplista natural de que, “para morrer, basta-se estar vivo”, creio que há uma conexão mais profunda nessa dicotomia, que minha última década de vida (e, em alguns momentos, morte) vem me ensinando.

Eu tive a sorte de ser criado em uma família grande, inclusive em termos de “alcance temporal” – tive todos os meus avós e conheci alguns dos meus bisavós. Intrínseca a todas as possibilidades de vida que essas companhias me proporcionaram, veio também a experiência das despedidas, que começaram cedo – lembro-me do frio na barriga que senti quando minha mãe entrou no quarto, lá pelos meus 10 anos, para avisar que estava indo ao enterro de minha bisavó. E assim seguiu o curso da vida e vieram diversas despedidas, até uma que não foi tão natural – a de minha mãe, que se foi com seus sessenta e poucos anos, o que, para os padrões de hoje, e de uma família em que vive-se até os 96, 97 anos, foi algo precoce. E, somando-se a um câncer voraz, foi um choque, é claro.

Quase todo mundo recebe, em sua educação, uma variedade de orientações e ensinamentos “espirituais”. Algumas famílias criam filhos dentro de uma religião, outros, em busca de autoconhecimento, acabam escolhendo uma filosofia a ser seguida com seus preceitos e crenças. A experiência de um aspecto espiritual da vida tem mil e uma facetas e manifestações, e uma parcela muito grande de nós vivencia isso. Eu não fui diferente – iniciações, livros sagrados, conhecimentos ocultos, ioga, orações, guias, meditação, projeção astral… Mas quando a morte veio… Nada disso. Vivi a experiência de forma completamente material e empírica.

Minhas vivências da morte foram experiências extremamente práticas – cuidar, proporcionar conforto, remediar, brigar até. Estar presente. Muito presente. E para onde haviam ido todas aquelas teorias e crenças e filosofias? “A morte é apenas uma passagem”? Reencarnação, guias espirituais, energias tudo o mais??

Recentemente perdemos um de nossos cães, e tive a oportunidade de experimentar essa ambiguidade novamente. Napoleão era um basset hound clássico – bonachão, brincalhão, amoroso. Mas doente. Resgatamos o bichinho com quase dois anos de idade, quase morrendo pela terceira vez por negligência de pessoas que não merecem nem de longe ser chamadas de donos. Com as sequelas resultantes, sabíamos que ele não teria vida longa. Porém tudo correu muito mais rápido do que esperávamos – ele não chegou a completar quatro anos; de uma forma um tanto repentina, suas deficiências renais finalmente se mostraram e levaram-no em duas semanas.

Mergulhamos no processo de fazer todo o possível para que o bichinho vivesse, e, não havendo essa possibilidade, tratamos de cuidar dele da maneira que fosse possível. Foram atos muito práticos, empíricos. Se eu não tivesse me forçado a fazer um pensamento positivo por ele, pedir para seja lá quem ou o quê, que ele ficasse bem seja lá para onde fosse, acho que teria passado todas essas horas simplesmente sentado ao lado dele, tentando hidrata-lo e fazendo carinho nele. Simplesmente estando presente com ele. Ficando bem vivo ao lado dele.

Desconfio que a chave para a compreensão dessa profunda conexão entre morte e vida seja só uma: o tempo. Desde que minha mãe morreu, passei por muitas mudanças, profissionais, geográficas, mentais, emocionais. Mudei de casa, de cidade, de trabalho; mudei muito também internamente. No fim do ano passado, já passados mais de cinco anos após a morte de minha mãe, uma conhecida com uma certa “percepção extrassensorial” me disse que eu estava finalizando o luto dessa perda, e que em breve deveria voltar a uma nova vida. Mas… Já haviam se passado mais de cinco anos…

Porém, com uma análise mais distanciada, realmente, agora posso perceber esse “recomeço”, num movimento de vida, de recriação. Novas iniciativas, novos projetos, e até o símbolo mais óbvio de vida – um bebê está a caminho; em questão de meses teremos um filho. Não estou pendendo para uma veia melodramática e superficial do tipo, “o tempo cura todas as feridas” – longe de mim; trata-se de uma percepção muito mais profunda. Morte e vida não são apenas duas faces da mesma moeda – são ápices em ciclos. Que, em última instância, são parte de um continuum.

Creio que, se conseguirmos olhar para eventos de perda e morte marcantes com distanciamento temporal, é possível de se reconhecer quão interligados os fenômenos de nascer e morrer estão, que um não só alimenta o outro, mas dependem um do outro. Se, mesmo se protagonizarmos perdas irreparáveis, conseguirmos nos dar o tempo necessário (que pode ser longo) para revermos os eventos, perceberemos a conexão entre morte e vida, e como a primeira impulsiona a segunda, em última instância.

A grande dificuldade é que somos protagonistas de nosso próprio tempo por aqui, e a percepção da continuidade dos ciclos está fadada às intersecções entre as vidas humanas. Mesmo assim, esse fato é intrínseco a tudo que vive e morre, e quando o tempo ajuda, é mais fácil de percebermos. Estou preparando materiais em casa para fazer uma horta – hoje mesmo piquei restos e cascas de legumes para fazer uma composteira – eles estão morrendo ao mesmo tempo em que a pequena horta está nascendo. Quem sabe, daqui alguns anos… Não reconheçamos algum trejeito engraçado de nosso basset hound que se foi, o Napoleão, em algum cachorrinho filhote perdido por aí…

 

 

 

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